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8 de set. de 2012

Poesia de Regina Helena

 
 
Écos
Espalhando sentimentos entre entes e coisas,
Fecho janelas ignorando luzes e acendendo cismas.
Caminhos que eram meus, vertentes conhecidas,
Encantos desfazendo exceções e decisões imprecisas.
Fome e sede bendizendo anjos e colorindo prados
Guardam-se na memória de um tempo
Que se fez ouvir em écos de segrêdos
E se desejou sem pedidos e proibições.
Gentilezas sem preocupação de agradar
Que minhas mãos revelam entre fumaças
Sem reticências da alma e do espírito.
Vida profundamente sentida, domínios do passado...
Velhice que encontra sem espantos,
A menina que sonhou com a Terra Prometida
E atravessou, levada pelos ventos,
Ąs fronteiras de um país ainda inexplorado,
No qual os sinos dobram intermitentemente
E os sonhos são todos sepultados.
 
Regina Helena
 
 

23 de jul. de 2011

Poesia de Regina Helena


REFLEXÃO                                                                          
Os dedos do tempo apontam para o relógio
Onde as horas deslizam como aviso
Numa linguagem que tira o peso das palavras
Mas sustentam o invisível.
Transcrevendo o antigo,
Na exatidão do passado,
Adivinho o que virá,
Contemplando as estruturas de um poder
Que se define por imagens.
Tempo sem tempo...
Memória que não cansa...
Peito rasgado pela mão da vida,
Acolho e agasalho a luz que se apaga.
E na trilha, sem escolhas,
Aguardo o vir do novo dia...  

Regina Helena

8 de jul. de 2011

Poesia de Regina Helena


O PASSARINHO

Sensível e indigente, o coração,
eterno passarinho,
Recolheu o canto, guardou o sonho,
Acolheu o sol em sua noite...
E fazendo-se iniciante,
Aguardou a renovação do intérprete.
As armadilhas do maginário,
A razão confusa e claudicante,
O amargo sabor do fugidio
E a mágoa da escolha resultante,
Fizeram-no destemer na vastidão
O frio hálito dos ventos...
Cansado da linguagem
da própria experiência,
Despediu a saudade,
abraçou o abandono,
Abriu as asas, alçou vôo...
Mergulhou na escuridão,
ganhou distância...
O céu estava lindo!...
Mas a tristeza o impediu de ver
o brilho das estrelas.
E para não perturbar o silêncio
das cinzas que o recebiam,
De imaginar se houve solidão
Nessa gaiola que deixou vazia...

Regina Helena

21 de jun. de 2011

Poesia de Regina Helena


CONSTATAÇÃO

Guardei os olhos
Engoli em seco a emoção contida,
Recolhi no peito o que não era mistério
Mas desejava escondido.
Lambi feridas...
Domei a desistência...
Encurralei a alma que se questionava
Na loucura de verbos sem essência.
Havia neste tempo famélico e inútil,
Atalhos e convites impensados,
Silêncios que sabiam o meu nome,
Sombras e fantasmas alijados.
Havia neste tempo famélico e inútil,
Rupturas e anseios confirmados
Que estimulavam, na carne que baldeava,
A sede e a fome de meus medos.
Havia neste tempo famélico e inútil,
Insolidez, sentidos desgastados...
Havia a palidez diante da tristeza,
Assistindo a desfiguração da própria face.

Regina Helena

2 de jun. de 2011

Poesia de Regina Helena


ADVERTÊNCIA

Que se gere o novo
Porque o velho continua vivo e desconfiado,
A lógica solitária e frustrada,
A fé incerta e exigindo provas...
Quanto ao semeador,
Continua exigindo alto preço.
E no jardim, incompleto,
As folhas e flores mudando de perfume...
Que não se faça bobagem!
Porque o anjo é terrível e continua rondando...
Que se cuide, olhe e respire fundo
Para que não passe a vez
Daquela que morre lamentando a herança...
É preciso lembrar que o círculo permanece girando
E em suas voltas, guardando o que não sabemos...
Atentai bem!... Porque a noite é de morte
E o dia já foi totalmente perdido...

Regina Helena

Poesia de Regina Helena



O BARCO

Soltei-lhe as amarras e o deixei partir.
Contudo, ainda o vejo, flutuando o tempo,
Seguir viagem para o fim do mundo...
Ventos efusivos, velas enfunadas,
Singrando o desenredo que acompanha as vagas...
Engolindo entregas e escolhas
Por entre sombras e sóis adormecidos...
Barco solitário e a deriva
Esquecido da cor de seus quereres
Esvaziando as forças dos sentidos...
Olhos sem pálpebras e pupilas dilatadas
Demonizando a lágrima que ainda resiste,
Insistem que o barco já não mais existe...
Apenas o náufrago e as águas do passado.

Regina Helena


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